Sistema Penitenciário

Para especialistas, caos no sistema penitenciário é regra em todo o país

Superlotação, condições precárias de instalações e domínio do local

por facções criminosas, o que gerava "um contexto de fortes disputas e

tensionamentos". Relatório de janeiro de 2016 do Comitê de

Prevenção e Combate à Tortura, que visitou o Complexo Penitenciário

Anísio Jobim, já apontava o caos onde nesta segunda (2) 56 presos

foram assassinados.

 

Segundo especialistas ouvidos pela Folha, essa matança em Manaus

(AM) é uma tragédia anunciada. E essa conjuntura não é exclusividade

do Estado. Pelo contrário, é quase regra nacional.

 

"Nos últimos cinco anos, a população carcerária cresceu de maneira

absurda [são mais de 600 mil pessoas] a partir de prisões provisórias,

via de regra por crime de tráfico", aponta o sociólogo Arthur Trindade,

ex-secretário da Segurança Pública do DF.

 

A prisão provisória é aquela em que o sujeito vai preso antes

de ser julgado, em geral a partir de um flagrante policial, isto

é, quando é preso no ato do delito.

 

Por isso, a maior parte dos presos em flagrante são aqueles que estão

traficando ou que foram pegos após furto ou roubo. No Amazonas,

58% dos presos no sistema são provisórios, segundo dados do

Departamento Penitenciário Nacional, o Depen, ligado ao Ministério

da Justiça.

 

"Não dá pra discutir o problema prisional sem discutir o

problema da segurança pública. Enquanto houver uma

política de aumentar as detenções, não vamos resolver ou

administrar a questão penitenciária nem diminuir a

criminalidade", afirma.

 

[...]

 

FACÇÕES

 

Além da superlotação, o fluxo de presos provisórios no sistema

penitenciário coloca réus primários e criminosos não-violentos em

ambientes comandados por facções criminosas. "Essas organizações

vendem proteção, portanto quem ingressa no presídio precisa se

solidarizar com alguma facção para sobreviver", explica ele.

 

Camila Nunes Dias, professora da UFABC e autora do livro "PCC:

Hegemonia nas Prisões e Monopólio da Violência" (Saraiva, 2013), diz

que o PCC tem se expandido pelo país, dentro e fora dos presídios.

 

A organização criminosa criada em São Paulo é hegemônica também

nos Estados do Paraná e de Mato Grosso do Sul, onde controla rotas

de tráfico de drogas do Paraguai e da Bolívia que abastecem o Sudeste

brasileiro.

 

"Já a Família do Norte é uma facção predominante no Amazonas e no

Pará e, mesmo sendo um grupo regional, é muito importante na

economia ilícita da droga porque tem o controle estratégico das

fronteiras com a Colômbia e o Peru", explica Dias. "Essa característica

a coloca em pé de igualdade na região com facções nacionais como o

PCC e o Comando Vermelho (CV)."

 

Segundo a professora, PCC e CV, facções antes aliadas no

mercado do crime, declararam guerra uma a outra em julho

de 2016, o que agravou as disputas nos presídios brasileiros

onde estão presentes.

 

[...]

 

De acordo com Guaracy Mingardi, analista criminal que visitou

presídios de todo o país numa pesquisa sobre inteligência prisional

para o Depen, a tensão no sistema do AM já era conhecida.

 

Além disso, relatório do Comitê de Prevenção e Combate à

Tortura aponta que os presos denunciavam a fragilidade das

instalações do "seguro" do Anísio Jobim, afirmando que

"sentem muito receio de estarem em locais de fácil acesso e,

assim, serem torturados e morrer nas mãos da massa

carcerária".

 

[...]

 

 

Disponível na íntegra na fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/01/1846549-para-especialistas-caos-nas-prisoes-e-regra-em-todo-o-pais.shtml?cmpid=compfb 

Ao mesmo tempo que reprime, prisão brasileira permite armas, cozinha e maconha, diz antropóloga

  • 3 janeiro 2017

A prisão brasileira é "uma coisa muito louca", descreve a antropóloga e pesquisadora em violência Alba Zaluar. Ela explica: ao mesmo tempo que enjaula e oferece condições degradantes, o sistema carcerário do país permite armas, drogas e até a produção de bebidas alcoólicas - às vezes vendidas nas cantinas das unidades. 

"As prisões brasileiras não têm nada a ver com essa visão foucaultiana, da disciplinarização, da possibilidade de vigiar tudo. Aqui no Rio, presos constroem as próprias celas, e a cantina vende de tudo: fogãozinho, gelo para colocar no isopor. O pessoal cozinha nas celas."

Uma das primeiras a estudar a infiltração do narcotráfico nas comunidades pobres do Rio, Zaluar diz que a conivência com a entrada de maconha e outras substâncias que alteram o estado de consciência são formas de aliviar a tensão desses lugares "explosivos", onde rebeliões como a do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), próximo a Manaus, são "mais do que esperadas". Durante mais de 17 horas de motim, 56 presos morreram.

A fórmula que cria o conflito, conta a antropóloga à BBC Brasil, é clara: superpopulação, rivalidade entre facções, circunstâncias desumanas e um sentimento generalizado de injustiça.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil: Que elementos estavam presentes no complexo penitenciário próximo a Manaus para que explodisse uma rebelião? Um motim desse tamanho era esperado?

Alba Zaluar: Convenhamos, é mais do que esperado, porque um presídio que tem vagas para 400 pessoas ter mais de 1.200 já é um problema. E a pólvora é exatamente esta: você tem presos demais, inclusive muitos que não têm sentença ainda. É uma superpopulação carcerária de homens que não se sentem culpados de nenhum crime que justifique a perda da liberdade dessa maneira. Eles não consideram que traficar drogas seja um crime grave. Muitos se consideram apenas comerciantes. No caso de estupro ou dos homicidas é diferente, inclusive eles punem os estupradores dentro da prisão.

Além disso, o relacionamento entre os homens é complicado, justamente porque a rivalidade tende a explodir caso não haja uma socialização para resolver os conflitos pela palavra. As pessoas que não conseguem fazer isso explodem. E se tiverem alguma arma, vão usá-la. Eles receberam armas pelo buraco (no muro do presídio), mas fabricaram outras. Estão sempre fabricando armas, e as armas estão sempre entrando na prisão.

As prisões brasileiras não têm nada a ver com essa visão foucaultiana, da disciplinarização, da possibilidade de vigiar tudo. Aqui no Rio, presos constroem as próprias celas, e a cantina vende de tudo: fogãozinho, gelo para colocar no isopor. Os presos cozinham nas celas.

Resumindo, a situação é absolutamente explosiva. Você não tem um controle disciplinar, mas um amontoado de homens que não foram socializados para resolver seus conflitos pela palavra. E você bota todos aglomerados dentro de espaços de reclusão, nos quais eles não podem espairecer.

BBC Brasil: Ao mesmo tempo em que parecem muito restritivas, as prisões brasileiras também têm um comércio paralelo de drogas, armas e bebidas. Isso não é contraditório?

Alba Zaluar: Por que você acha que os carcereiros fecham os olhos em relação à entrada de drogas que alteram o Estado da mente, principalmente a maconha? Porque a maconha acalma.

Tem mais: (os presos) fabricam bebida alcóolica dentro da prisão. E vende bebida na cantina. A prisão brasileira é uma coisa muito louca, porque ao mesmo tempo em que é extremamente repressiva, de entulhar um monte de gente sem condições de higiene, com ratos e baratas, você tem todas essa liberalidade de fazer comida, bebida, fumar maconha, ter armas.

BBC Brasil: A rebelião em Manaus foi gerada pelo conflito entre duas facções rivais. Onde estão as origens desses grupos e como se tornaram tão fortes?

Alba Zaluar: Há alguns estudos (sobre o assunto), feitos principalmente no Rio de Janeiro, porque aqui estavam as grandes prisões, com presos políticos do Brasil todo e também presos comuns. Isso na década de 1970, durante o regime militar. Os presos políticos, quando chegaram em presídios grandes, como o de Ilha Grande, se organizaram.

Os presos comuns viram isso e se interessaram. Houve uma interação entre os presos políticos e os presos comuns, e os últimos aprenderam a se organizar.

Durante os anos 1970 havia duas falanges, como as facções eram chamadas então: Jacaré e Vermelha. A falange Jacaré era extremamente violenta, cobrava pedágio, intimidava os prisioneiros mais fracos. Havia uma forma de concretizar o poder na prisão que era extremamente violenta e injusta do ponto de vista do prisioneiro.

Inventaram então uma organização, seguindo os princípios que aprenderam com os presos políticos, para se proteger dentro da prisão, proibindo o estupro de prisioneiros, o pedágio. A facção começa com o sentido de proteger o prisioneiro.

Isso foi criando o esquema de lealdade e também de conexão via negócios. Durante os anos 1970, (as facções) estavam principalmente envolvidas com roubos e assaltos a banco, mas no final da década perceberam que o tráfico de drogas dava muito mais dinheiro e era menos perigoso.

Em meados dos anos 1980, elas já dominavam o tráfico. Foram conquistando os vários traficantes, que antes eram freelancers, e passaram a ter essa ligação por conta da proteção.

Esses interesses comerciais, somados ao interesse em ter proteção na prisão, fez com que as facções crescessem. Mas sempre tem briga. Aqui no Rio temos o Comando Vermelho, o Amigo dos Amigos (ADA), o Terceiro Comando e agora o PCC, que está atrelado à ADA, de modo que sempre houve muito conflito fora da prisão. Dentro dela, evitam-se as brigas separando os presos por facções, o que parece não ter ocorrido em Manaus, como não ocorreu no Maranhão, em Pedrinhas.

BBC Brasil: O secretário de segurança do Amazonas falou que esse foi mais um "capítulo da guerra silenciosa e impiedosa do narcotráfico". Mas na composição das nossas prisões há uma grande parcela de pequenos traficantes, e poucos grandes líderes do tráfico.

Alba Zaluar: A gente tem vários desses pequenos traficantes. Nunca mataram ninguém, sabe? Nunca roubaram. Estavam desempregados, começam a vender uma coisa ali, ganham um dinheirinho e ficam vendendo. Aí passam anos na prisão, veem um monte de coisa, inclusive rebeliões, gente sendo morta e têm um profundo sentimento de injustiça, porque acham que não merecem passar por tudo isso.

BBC Brasil: Além do narcotráfico em si, o problema não estaria também na forma como o Estado lida com ele, na Justiça e no sistema carcerário?

Alba Zaluar: Exatamente. É como o Estado lida com isso. Até na proposta da guerra contra as drogas, que faz com que qualquer um que more em favela, tenha um caderninho de nota com os nomes das pessoas para as quais vende e pratique essa atividade comercial, caia na categoria de traficante, sendo que tráfico é um crime hediondo, que permite penas muito altas.

É claro que isso aumentou enormemente a população carcerária. É muito alto o percentual de presos por conta das atividades relacionadas ao tráfico. Além disso, acontecem muitos homicídios por causa dessas guerras de facções e eles não são investigados, porque não há como provar nada, não tem testemunha. Esses crimes ficam sem solução.

A repressão do Estado faz com que a droga seja muito valiosa e essa atividade comercial esteja cheia de riscos, então para se proteger eles têm que se armar, se organizar e o resultado é este.

BBC Brasil: Nesta rebelião no Amazonas, assim como em outras, o número e a crueldade das mortes chocaram. Por que vemos assassinatos tão bárbaros entre presos?

Alba Zaluar: É uma coisa que tem a ver com a guerra, se chama sociologia do ethos guerreiro. Na guerra você mata ou você morre. E, além disso, você tem que mostrar para seu inimigo que está muito forte. Para fazer isso, tem que se armar muito, ter muitos soldados. E também fazer essas demonstrações (de força).

Quanto mais cruel você é, mais medo provoca no inimigo. Assim como tem uma corrida armamentista, há uma corrida de crueldade. Eles vão se tornando cada vez mais cruéis para dar cada vez mais medo no rival.

BBC Brasil: Como lidar com rebeliões como esta e o que fazer para evitá-las?

Alba Zaluar: Em primeiro lugar, você não pode jogar um bando de homens dessa maneira dentro de prisões e esquecê-los lá, deixar que se virem, que resolvam os problemas de comida, da cela, as tensões lá dentro. A prisão é um lugar extremamente tenso. Precisa ter alguma coisa que demonstre que há saídas. A saída para o preso seria adquirir uma profissão, se educar mais, continuar a trabalhar.

Vários desses que estão nas prisões são trabalhadores, já tinham atividades laborais antes, eram desempregados, mas sabiam fazer coisas. Você tem que dar essa possibilidade, demonstrando que é possível sair. Penas imensas, anos e anos na prisão, não facilitam em nada a vida deles.

Além do mais, a própria maneira de julgar tem que ser aprimorada, porque muitos desses presos se sentem extremamente injustiçados, e isso não é bom para a cabeça deles nem para quem está como eles na prisão.

Existem sistemas de pena alternativa e algo que se chama justiça restaurativa. É aquela que faz com que a vítima ou seus parentes e o perpetrador da ação criminosa se encontrem para que um saiba o mal que causou ao outro. Especialmente para que quem fez o mal entenda o que provocou, se arrependa e demonstre que compreende os efeitos de suas ações.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-38500556 

Maior matança em presídios desde o Carandiru deixa 55 vítimas no AM

 

Uma briga entre facções criminosas rivais seguida de rebelião no maior presídio do Amazonas deixou 56 mortos nesta segunda-feira (2) em Manaus, capital do Amazonas.

O motim durou 17 horas e, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado, há decapitados entre as vítimas. Inicialmente o governo do AM falou em ao menos 60 vítimas, mas na tarde desta segunda o número foi atualizado pelos legistas. "Nós tínhamos contado 60 [mortos]. Mas contaram repetido parte de corpos", disse Pedro Florêncio, secretário de Estado de Administração Penitenciária.

A matança é a maior em número de vítimas em presídios do país desde o massacre do Carandiru, em 1992, em São Paulo, quando uma ação policial deixou 111 presos mortos na casa de detenção. Desde então, há outras tragédias no sistema carcerário nacional, como a rebelião em 2004 na Casa de Custódia de Benfica (RJ), quando morreram 31 pessoas. Também entram na lista o motim no presídio de Urso Branco (RO), que deixou 27 mortos em 2002, e a rebelião no Complexo Penitenciário de Pedrinhas (MA) em 2010, com 18 mortos.

Em Manaus, o motim começou na tarde de domingo (1º), no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), localizado no km 8 da BR-174. Na unidade havia 1.224 homens, o triplo da capacidade (de 454 vagas), segundo dados do mês passado do governo estadual.

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A rebelião foi motivada por uma briga entre as facções Família do Norte e PCC, segundo Marluce da Costa Souza, coordenadora da Pastoral Carcerária do Estado. O governo do Estado também informou que os chefes das facções não fizeram exigências. O massacre é tratado como uma guerra entre os grupos criminosos, e, de acordo com as investigações iniciais, a rebelião foi comandada pela Família do Norte.

"Há uma guerra silenciosa que o Estado tem que intervir. Que guerra é essa? Narcotráfico. O que nós estamos vendo, o que vimos hoje? Uma facção brigando com a outra. Porque cada uma quer ganhar mais dinheiro que a outra, a briga é por dinheiro e por espaço", disse o secretário da Segurança Pública do Amazonas, Sérgio Fortes, na entrevista coletiva desta segunda.

O juiz titular da Vara de Execução Penal do TJ (Tribunal de Justiça) do Amazonas, Luís Carlos Valois, disse que ficou chocado com o que viu no Compaj. "Nunca vi nada igual na minha vida, aqueles corpos, o sangue... fiquem com Deus!", escreveu Valois em sua página no Facebook.

De acordo com Valois, sua presença no local foi requisitada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado. "Chegando lá os presos tinha tomado todo o regime fechado e o semiaberto. Tinham feito um buraco e passavam de um lado para o outro".

O juiz diz que liderou as negociações com os detentos. "[Eles pediram] apenas que nos comprometêssemos a não fazer transferências, a manter a integridade física e o direito de visitas".

De acordo com Valois, não há como precisar o número de mortos. "Muitos estavam esquartejados. Difícil afirmar".

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A Seap (Secretaria de Estado da Administração Penitenciária), pasta que administra o sistema penitenciário do Amazonas, isolou toda a área onde ficam as duas unidades prisionais. Nas vias que dão acesso à rodovia BR-174, foram montadas barreiras policiais para auxiliar na busca por fugitivos, além de impedir que parentes se aproximem dos presídios.

Dos reféns no Compaj, 74 eram detentos e outros 12 funcionários da Umanizzare, empresa de gestão privada que presta serviço no complexo. Após a rebelião, os funcionários foram liberados na manhã desta segunda (2), sem ferimentos. Ainda não foi informado quantos detentos ficaram feridos.

O Ministério da Justiça e Cidadania informou que o ministro Alexandre de Moraes manteve durante todo o tempo contato com o governador do Amazonas, José Melo de Oliveira. O governador disse ainda que utilizará os R$ 44,7 milhões de repasse que o Fundo Penitenciário do Amazonas recebeu do Fundo Penitenciário Nacional (Funpen), na última quinta-feira (29), para reforma a unidade.

O governo federal tem acompanhado desde a noite de domingo (1º) a situação no maior presídio do Amazonas e deve transferir presos ligados a facções criminosas para outras unidades prisionais no país.

Ao ser questionado sobre as medidas que serão tomadas, o secretário da Segurança Pública do Estado afirmou ser necessária a construção de novos presídios e o combate ao tráfico de drogas.

"Transferência de presidiário não seria eficaz nessa situação. Não temos condições de mantê-los separados. Temos quantidade limitada de presídios. Construir mais presídios seria uma boa opção", disse. "Nós precisamos fazer o combate ao narcotráfico internacional de maneira coordenada no Brasil inteiro e precisa colocar mais investimento para isso. O problema número um da segurança publica do brasileiro é o narcotráfico", completou.

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Disponível na íntegra na fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/01/1846359-rebeliao-que-ja-dura-17-horas-no-am-tem-ao-menos-25-mortos-diz-policia.shtml

 

Ministério da Saúde projeta ações para prevenção da AIDs nas prisões

20/12/2016 

O Departamento das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV) do Ministério da Saúde promoveu em 15 de dezembro a Reunião Técnica para Elaboração de Agenda Integrada de Prevenção das IST/HIV/Aids e HV para Pessoas Privadas de Liberdade.

O objetivo do encontro foi facilitar o diálogo e a aproximação entre as pastorais Carcerária, do Menor e daAids com a equipe técnica do Ministério da Saúde, rumo a uma ação conjunta que leve a prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (IST), do HIV, da Aids, das hepatites virais e da tuberculose às pessoas privadas de liberdade.

“O trabalho das pastorais é muito importante porque aborda as populações mais vulneráveis, inclusive aquela privada de liberdade”, disse a diretora do DIAHV, Adele Benzaken. Ela acrescentou que a reunião é uma rica oportunidade para “compartilhar experiências e realizar um trabalho conjunto que dissemine a prevenção combinada por meio de uma agenda integrada”.

Presente ao encontro, o assessor nacional da pastoral da Aids Frei Luiz Carlos Lunardi lembrou que Dom Paulo desenvolveu a primeira campanha de prevenção ao HIV/Aids da Igreja Católica no Brasil – “ Aids em Alerta” –, na década de 1980.

Para o Frei Lunardi, a reunião técnica é crucial por fazer “um chamamento a três pastorais que têm uma enorme rede e capilaridade entre populações que são atingidas hoje pela epidemia de aids”. Segundo o frei, é urgente “construir uma agenda positiva e propositiva no sentido de termos alternativas e saídas para o acesso, atendimento e acompanhamento da população privada de liberdade”.

 

Fonte: http://carceraria.org.br/ministerio-da-saude-projeta-acoes-para-prevencao-da-aids-nas-prisoes.html

 

Autoridades assumem risco de rebeliões ao endurecer prisão de líderes de facção criminosa

15/12/2016

As unidades prisionais de São Paulo estão em alerta para eventuais rebeliões após a transferência, na quarta-feira, das principais lideranças da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) para o chamado RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) - um tipo de prisão mais rígido, onde o detento é mantido isolado.

"Temos que assumir esse risco, caso contrário mandaremos a mensagem de que eles (líderes do PCC) nunca serão atingidos. Se eles não fossem para o RDD seria uma demonstração de fraqueza (das autoridades)", disse à BBC Brasil uma fonte envolvida no processo.

A transferência foi determinada pela Justiça Estadual a pedido da Polícia Civil com o aval do Ministério Público. A BBC Brasil decidiu não publicar nomes de autoridades envolvidas no processo por motivo de segurança.

Porém, alguns juristas questionam a constitucionalidade do RDD e dizem que o regime "fere a dignidade da pessoa humana" e é ineficaz.

"O RDD é ineficiente e torna a sociedade mais violenta como um todo", afirmou André Kehdi, presidente da organização não-governamental Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (Ibccrim).

Em 2006, a transferência de centenas de presos, entre eles o detento acusado de liderar o PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, para outras unidades prisionais, foi seguida de uma onda de cerca de 370 ataques de criminosos contra as forças de segurança e retaliações que deixaram mais de 140 mortos no Estado de São Paulo.

Operação policial

A transferência dos detentos vem após uma investigação da Polícia e do Ministério Público sobre como líderes da facção estariam comandando as ações do crime organizado nas ruas, mesmo detidos em prisões de segurança máxima.

O PCC é acusado de comandar os detentos de boa parte das prisões brasileiras além de comandar o tráfico de drogas e outras atividades criminosas fora dos presídios, no Brasil e em países da América do Sul.Em novembro, a operação Ethos (que resultou nas atuais transferências) prendeu mais de 30 suspeitos - a maior parte deles advogados - entre eles o vice-presidente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana).

Eles atuariam de forma a favorecer e facilitar as atividades criminosas de 14 líderes do PCC.

Em uma decisão liminar, o Tribunal de Justiça determinou a transferência de 13 desses detentos das penitenciárias de segurança máxima de Presidente Venceslau 2 (onde ficava a maioria dos integrantes da cúpula da facção), Avaré e Mirandópolis para o presídio de Presidente Bernardes, todas em São Paulo, por 60 dias.

A maioria deles já está na unidade, onde ficam em celas individuais e têm direito a duas horas de diárias de banho de sol. Entre eles estão Marcola e a cúpula da facção, além de presos encarregados de organizar o sistema de advogados do PCC.

Opiniões divididas

Segundo um jurista especializado em investigar o PCC, o Regime Disciplinar Diferenciado é hoje um dos principais instrumentos para controlar as facções criminosas. Isso porque impede a comunicação entre o comando da facção e seus subordinados.

O isolamento seria capaz de enfraquecer os líderes da facção, desestabilizar e até criar conflitos em toda a estrutura da organização criminosa.

Nesse caso específico, os envolvidos no processo dizem acreditar que o Estado e a Justiça demonstrariam fraqueza se não enviassem os suspeitos ao RDD - após terem colhido evidências de que eles seriam capazes de comandar a atuação da facção nas ruas mesmo estando presos.

Mas muitos operadores da lei consideram que a medida seria inconstitucional. Uma ação da Ordem dos Advogados do Brasil questiona a constitucionalidade da medida no Supremo Tribunal Federal.

Segundo Kehdi, do Ibccrim, as condições que permitem que alguém seja mandado ao RDD são muito genéricas.

No processo atual, em linhas gerais elas se baseiam no fato dos detentos participarem de organização criminosa.

"Esse tipo de medida aumenta a tendência dos detentos desenvolverem problemas psiquiátricos. As pessoas enlouquecem. Isso vai contra a ideia de que a prisão é uma forma de ressocializar alguém", disse.

"Isso é mais um ato político que jurídico. O RDD amedronta, mas não adianta. Quando você tira um líder da facção outro entra em seu lugar", afirmou.

A Justiça negou em 2013 um pedido do Ministério Público para que Marcola fosse mandado ao isolamento, Mas no início de 2014 ele chegou a ser mandado ao RDD por um mês - sem a ocorrência de rebeliões ou represálias.

Até o fechamento dessa reportagem não havia indícios de qualquer tipo de retaliação do PCC em relação às transferências. Autoridades envolvidas no caso dizem não esperar reação violenta, mas afirmam que o Estado e a Justiça estão prontos para lidar com eventuais rebeliões no sistema prisional.

 

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-38323519