Cidadania e Justiça

Obrigatória em crimes com drogas, 'pena-terapia' é exceção na Justiça

Relatos de violência e abuso policial chegam ao Congresso

5 setembro 2016  

Audiência pública foi convocada para debater a repressão e a violência policial nas manifestações ocorridas por todo o Brasil e também para dar voz às vítimas das violências nos atos realizados em diversas cidades do País.

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados promoveu audiência pública na tarde desta quarta-feira (14) para debater a repressão e a criminalização de movimentos sociais, especialmente nas manifestações que pedem a saída de Michel Temer da presidência e a convocação de eleições diretas. A atividade contou com a participação de parlamentares e de representantes de movimentos sociais, além de vítimas da violência policial cometida em manifestações realizadas em diferentes cidades do Brasil.

Antes do início da audiência, o deputado Nilto Tatto, vice-presidente da CDHM da Câmara, lamentou o fato de deputados da base do governo golpista não comparecerem à sessão, impossibilitando quórum para abertura dos trabalhos e apreciação de requerimentos que estavam na ordem do dia, como os relacionados à presença do capitão do exército William Pina Botelho, o Balta, infiltrado em movimentos sociais com o objetivo de espionar seus membros, cronogramas e táticas de atuação.

O jornalista Fausto Salvadori Filho, que fez parte da equipe responsável pela reportagem que denunciou o esquema de infiltração e espionagem, foi um dos convidados à audiência. Em sua participação, aproveitou para contar um pouco do que foi apurado sobre esta grave denúncia de cerceamento à liberdade de organização e manifestação do pensamento, numa agressão frontal à Democracia e à participação popular inerente à vida democrática.

Fausto contou que a prisão dos manifestantes ocorreu por volta das 15h, mas que somente após as 23h os advogados tiveram acesso aos presos. Nem mesmo os familiares puderam ficar com eles na delegacia. Para piorar, foram levados para o DEIC, que é dedicado à custódia de pessoas ligadas ao crime organizado, como o tráfico de drogas e quadrilhas de assalto a bancos. E, ali mesmo na delegacia, começaram as desconfianças em relação ao 'Balta', o capitão do exército infiltrado nos movimentos sociais.

Os jovens detidos repararam que um dos companheiros que seguia com eles para a manifestação não foi preso, o que levantou suspeitas acerca de sua conduta. Quando acabou o isolamento e puderam ter contato com os advogados e jornalistas, falaram sobre a desconfiança. Ao serem mostradas fotografias de 'Balta', os jovens confirmaram que se tratava da mesma pessoa, o que motivou a reportagem da Ponte Jornalismo sobre a espionagem.

Fausto também citou o pouco cuidado de 'Balta' com o seu disfarce, ainda que sua infiltração junto aos movimentos date de 2015. Antes da publicação da reportagem, William Pina Botelho mantinha perfis em diversas redes sociais, que inclusive eram usadas nas tentativas de infiltração. Dessas redes foram retiradas as fotografias que ajudaram na identificação do espião junto aos detidos que seguiam para a manifestação. A Polícia Militar de São Paulo nega qualquer vínculo com o araponga. O Exército disse que irá apurar a conduta do capitão.

Violência Policial

A violência policial que explodiu nos protestos contra o presidente golpista Michel Temer ocorridos em todo o Brasil, e suas vítimas, deram o tom da audiência pública. A médica Maria Alessio e os advogados Mauro Rogério Silva e Renato Almeida Freitas Júnior, vítimas da truculência policial em protestos ocorridos em Brasília, Rio Grande do Sul e Paraná, respectivamente, deram depoimentos sobre as violências e humilhações sofridas. Em comum, a arbitrariedade na abordagem e a inexistência de fatos que motivassem a conduta violenta.

O caso do advogado Mauro Rogério teve grande repercussão e chocou o Brasil: ele foi brutalmente espancado em Caxias do Sul (RS) ao ir buscar o filho em uma manifestação no dia 31 de agosto, o mesmo dia da confirmação do golpe de estado pelo Senado Federal. A ação truculenta e desmedida foi flagrada em vídeo que viralizou nas redes sociais.

Mauro contou que ao redor da praça onde o ato se dispersou podiam ser vistas viaturas da polícia em pontos estratégicos para abordagem de manifestantes que iam embora. Seu filho o aguardava próximo a um destes pontos e não estava sendo abordado, mas que mesmo assim foi averiguar - na condição de advogado - o que se passava com um grupo de manifestantes que era impedido de seguir pela polícia militar.

Em menos de 6 segundos, Mauro diz, ele já estava sendo empurrado para a parede e começavam as primeiras agressões. Isso mesmo tendo se identificado enquanto advogado. E o pior não pode ser visto no vídeo. Na delegacia, as agressões recomeçaram, desta vez acompanhadas por práticas análogas à tortura: algemado de barriga para baixo com as mãos nas costas, suas pernas foram dobradas para encaixar atrás dos punhos, o que causava dificuldades de respiração e aumentava a percepção da dor.

Mauro não foi o único advogado que, apresentado-se como tal, foi vítima da violência policial. Renato Almeida Freitas Júnior também passou maus momentos sob abordagem policial na cidade de Curitiba, capital do Paraná. Ele conta que a cidade tem uma história de higienização de espaços, sendo o centro um dos locais em que esta diretriz é mais perceptível. E foi lá, acompanhado de amigos, que Renato foi mais um dos 'casos isolados' de violência e arbitrariedade policial.

Estavam escutando música no carro, conversando, quando uma guarnição da Guarda Municipal se aproximou e solicitou a identificação deles. Renato apresentou a sua carteira da OAB. Foi o estopim para que as agressões começassem. Morador da periferia, a autenticidade do documento foi questionado pelos guardas municipais. Não satisfeitos, decidiram também revistar o carro de Renato. Neste momento, o advogado disse que gostaria de acompanhar a revista. Começaram as agressões físicas.

Após o espancamento, Renato foi colocado na viatura para ser levado à delegacia. No entanto, seu celular ainda estava no bolso, o que para ele indica que a guarda civil estava mais preocupada em humilhar e agredir do que fazer 'valer a lei' ou algo do tipo. Renato aproveitou, então, para fazer uma postagem nas redes sociais denunciando a arbitrariedade de sua prisão. Na delegacia, foi trancado nu em uma cela por 4 horas, período em que as humilhações e agressões morais não cessaram.

Não somente violência física, mas também violência psicológica e intimidação fazem parte do repertório policial apresentado nas manifestações contra o governo golpista de Michel Temer e pela convocação de eleições diretas já. Maria Alessio, médica em Brasília, passou por isso na manifestação que acabou em um show de horrores da PM na Rodoviária do Plano Piloto na noite do dia 31 de agosto. Mesmo não tendo marchado em companhia dos demais manifestantes, Maria foi abordada ao chegar na rodoviária.

Lá chegando, percebeu a aproximação de uma viatura da Polícia Militar que a mandou encostar o carro. Sua primeira reação ao parar foi perguntar o que estava motivando a abordagem, já que ao passar ao lado da manifestação, diminuiu a velocidade e businou em apoio aos manifestantes. Neste momento, Maria percebeu que estava sendo fotografada e filmada pelos policiais, em diferentes situações, além de registros do seu veículo e das placas de identificação.

Mesmo sem nenhuma ilegalidade constatada, ela foi obrigada a seguir para a delegacia. Durante o trajeto, foi escoltada por duas viaturas, uma a frente e outra atrás do seu carro, sendo que só saíram da rodoviária após a chegada de 'reforço' da PM para a abordagem de uma manifestante que seguia sozinha dentro de seu veículo. Maria acredita que agiram simplesmente para intimidar, embora tenha sido acusada de desobediência e multada por infração de trânsito.

Deborah Duprat, Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão, também esteve presente à audiência e aproveitou para falar de sua preocupação com a 'imunização da polícia militar'. Deborah aludiu ao fato das representações promovidas contra ela no Conselho Nacional do Ministério Público por insistir em investigar as violações de direitos das polícias militares, quando alegam que ela invade a competência de ministérios públicos estaduais ao fazer isso. Deborah foi lacônica: "o direito à crítica e a sua manifestação é o que oxigena a democracia. Ser integrante de um movimento social não é ser integrante de uma organização criminosa. Vivemos tempos difíceis e precisamos estar prontos para enfrentá-los".

Fonte: https://ninja.oximity.com/article/Relatos-de-viol%C3%AAncia-e-abuso-poli-1

Milhares vão às ruas contra Temer em SP e PM reprime ato com justificativa controversa

São Paulo 

Depois de horas de marcha pacífica entre a avenida Paulista e o Largo da Batata, a polícia joga bombas quando os manifestantes já estavam de saída 

Havia milhares de pessoas na avenida Paulista neste domingo protestando contra o presidente Michel Temer em uma manifestação convocada, inicialmente, pelos coletivos Frente Brasil Popular ePovo Sem Medo. Em nada lembrou os outros cinco atos que aconteceram ao longo da semana que passou em São Paulo, e que foram classificados de “grupos pequenos de não mais que 40 a 100 pessoas”, como disse o presidente Michel Temer em entrevista na China. A PM não divulgou o balanço de público. Na conta dos organizadores, eram 100.000 pessoas: famílias com crianças de colo, jovens e manifestantes ligados a movimentos sociais que lotaram a avenida, e marcharam, a partir das 18 horas, até o Largo da Batata. Tudo correu de maneira tranquila e organizada, como atestou a reportagem do EL PAÍS, entre 16h30, horário marcado para começar o ato no MASP, na avenida Paulista, e 20h45, quando os manifestantes já estavam no Largo, depois de marchar por mais ou menos cinco quilômetros. 

Mas, quando as pessoas começaram a ir embora, dirigindo-se ao metrô Faria Lima, em frente à Batata, uma confusão se instalou com a Polícia Militar jogando bombas de gás lacrimogênio para dispersar o fluxo dentro e fora da estação. Muitas pessoas começaram a passar mal e a tossir em reação ao gás, incluindo idosos. Os policiais jogaram bombas no mesmo Largo, numa ação que pegou de surpresa a todos ali presentes. Mesmo sem reação, a Polícia passou jogando mais bombas. “Paramos para comer em um bar e a polícia covarde e canalha, sem motivo algum, jogou uma bomba de gás dentro do estabelecimento”, relata a publicitária Mariana. 

A ação da PM no metrô começou quando um grupo começou a gritar “Libera a catraca”. Segundo a polícia, foram vândalos que provocaram essa reação. “Em manifestação inicialmente pacífica, vândalos atuam e obrigam PM a intervir com uso moderado da força/munição química”, divulgou a polícia do Estado de São Paulo em seu twitter por volta das 21h. Era o mesmo desfecho que marcou todos os atos anti-Temer realizados desde a segunda, dia 29. Balas de borracha também foram disparadas.

O fotógrafo Maurício Camargo foi atingido, segundo relataa repórter Marina Rossi, que estava no momento do tiro. Um jornalista da BBC Brasil recebeu golpes de cassetete mesmo estando identificado como jornalista. Segundo o Grupo de Apoio ao Protesto Popular (GAPP), que presta assistência médica para feridos em manifestações, 12 pessoas foram vítimas da ação policial, sendo cinco delas intoxicadas com gás, quatro por estilhaços, e três por balas de borrachas.

Imagens de uma vidraça quebrada em um estabelecimento na Largo da Batata, divulgada pela Globo News, explicaria mais tarde o que a PM procurou justificar. Mas, os seis jornalistas do EL PAÍS que seguiram a marcha dos manifestantes em distintos pontos do percurso não presenciaram nenhum ato de vandalismo, o que não deixa claro se a tal vidraça quebrada foi uma reação posterior à violência policial. Outras dezessete pessoas que estavam no protesto relataram, por rede social, também não ter visto nada que pudesse ser considerado "vandalismo".

Às 22h45, a Secretaria de Segurança do Estado divulgou uma nota alegando que houve um princípio de tumulto na estação, que “se transformou em depredação. Vândalos quebrando catracas, colocando em risco a vida de funcionários”. A repórter Marina Novaes se encontrava no local na hora das bombas e não viu nenhuma catraca depredada. Mais tarde, a ViaQuatro, concessionária responsável pela estação Faria Lima, disse que a confusão resultou em uma lixeira, uma luminária e uma catraca quebrada. O que também não deixa claro se esses prejuízos foram provocados após as bombas terem sido atiradas.

Chamou a atenção o fato de que, neste ato de domingo, havia a presença de famílias inteiras com crianças e gente acima dos 40. Nos protestos anteriores, que aconteceram ao longo desta semana, a presença majoritária era de jovens estudantes, que tinham uma atitude mais provocativa com a polícia. Por isso, a ação da PM causou estranheza e aumentou a desconfiança dos militantes de esquerda sobre as reais intenções da corporação. “A PM de [governador Geraldo] Alckmin dá seu show antidemocrático. Após o encerramento do ato pelo Fora Temer com cerca de 100.000 pessoas, a PM resolveu provocar, atirar bombas e jatos de água. Não nos intimidarão! Nenhum passo atrás!”, disse nas redes sociais Guilherme Boulous, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Para além deste desfecho infeliz, o Governo Temer certamente terá de rever seus conceitos sobre a dimensão dos protestos que o rejeitam na presidência. Milhares de manifestantes gritaram “Fora Temer” e “Diretas Já” para marcar posição na rua e deixar claro que não estão confortáveis com a sua chegada ao poder após o impeachment da ex-presidenta Dilma. “Ele não deveria ter minimizado os protestos, foi falta de respeito”, disse Rodrigo, funcionário público do governo de São Paulo. Estava entusiasmado por ver tantos militantes de esquerda juntos. “Só em junho de 2013 vi isto”, afirmou, lembrando as manifestações daquele ano.

Marchava ao lado de Daniela, que trabalha com educação. Enquanto caminhavam, conversavam sobre erros passados da ex-presidenta Dilma. E reconheciam naquela multidão que muitos dos que estavam saindo para protestar não haviam defendido a ex-presidenta durante o processo de impeachment. “Ao ver o outro lado crescer, é preciso voltar às ruas”, diz Daniela.

Sidney Fernandes, professor de História, e Wendel Alves, monitor de cultura, vieram de Santo André, na grande São Paulo. “Viemos para denunciar o golpe em curso que vai tirar direitos dos trabalhadores, e dinheiro de serviços públicos como o SUS”, contou Fernandes. Não tinham expectativa de que Dilma voltasse. “Não acreditamos que ela precise voltar, mas também não é certo que Temer, que não teve nenhum voto fique. Queremos Diretas Já”, repetindo um mote ouvido ao longo de toda a marcha. O senador petista Lindbergh Farias garantiu que o PT não vai facilitar a vida de Temer. “Não sairemos mais das ruas até conseguirmos as Diretas Já”, garantiu.

Ao longo do protesto era possível ver bandeiras dos movimentos sociais, da CUT e de alguns coletivos. Mas, a grande maioria dos manifestantes não estava vinculada a nenhum movimento em específico. Haviam votado em Dilma na eleição de 2014. Roseli, psicóloga que acompanhava o movimento da marcha na avenida Rebouças, disse que apoiava o protesto porque estava contra a forma como o impeachment foi aplicado. “Poderia ter sido com qualquer presidente, não só com a Dilma. Não estaria de acordo do mesmo jeito”, disse. Alguns políticos estiveram presentes no local, como a deputada federal Luiza Erundina (PSOL), o senador Lindbergh Farias (PT), e o secretário municipal, Eduardo Suplicy.

Há mais dois atos marcados para esta semana, nos dias 7 e 8 de setembro. A violência gratuita do ato deste domingo pode ter um efeito bumerangue para o Governo Temer. Foi assim em junho de 2013 quando a repressão policial insuflou os manifestantes que foram engordando os protestos a cada novo ato. E os eleitores de Dilma, que foram às ruas neste domingo, deram o recado ao presidente em um dos coros cantados ao longo da marcha: “Temer, não tem arrego, você tira o meu voto e eu tiro seu sossego!”.

 

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/05/politica/1473039670_195291.html 

 

PMs que jogaram rapaz de telhado em SP serão julgados por homicídio triplamente qualificado

 por 

Fábio Gambale da Silva, Tyson Oliveira Bastiane, Silvano Clayton Reis, Sílvio André Conceição, Flávio Lapiana de Lima e Samuel Paes vão a júri popular acusados de terem matado Fernando Henrique e Paulo Henrique por motivo torpe, através de um meio cruel e com recurso que dificultou defesa

Seis dos sete policiais militares que mataram Fernando Henrique da Silva e Paulo Henrique Porto de Oliveira, seu amigo de infância, no Butantã, zona oeste de São Paulo, em 7 de setembro do ano passado, serão submetidos a julgamento por júri popular acusados de homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima). Fernando foi atirado de um telhado antes de ser alvejado quatro vezes. Eles eram acusados de estar com uma moto que havia sido roubada antes e abandonada.

Fábio Gambale da Silva, Tyson Oliveira Bastiane, Silvano Clayton Reis, Sílvio André Conceição, Flávio Lapiana de Lima e Samuel Paes são os PMs que serão julgados. A policial militar Mariane de Morais Silva Figueiredo, que estava na ação, foi impronunciada e, assim, não será julgada. A juíza Giovanna Christina Colares, da 5ª Vara do Júri do Fórum Criminal Central, entendeu que ela não teve participação na morte das vítimas.

De acordo com a Justiça, os crimes de homicídio contra os suspeitos de roubo foram motivados, primeiramente, por eles terem desafiado o poder dos policiais militares, desrespeitando a ordem de parada. No entanto, segundo a juíza, os PMs foram cruéis por terem executado as vítimas de forma “fria e sádica” e utilizaram “recurso que dificultou a defesa das vítimas”, matando os rapazes “quando estavam absolutamente rendidos”.

A juíza determinou que os réus não poderão aguardar os julgamentos em liberdade. “A custódia cautelar dos acusados justifica-se, notadamente, para que reste garantida a ordem pública, já que se apuram nestes autos as mortes de dois civis praticadas por policiais militares, de quem a sociedade espera justamente a segurança e a ordem”, argumenta Giovanna Colares.

A defesa dos réus Tyson Oliveira Bastiane e Silvano Clayton dos Reis pleiteiam a absolvição sumária dos acusados. A defesa da ré Mariane de Morais Silva Figueiredo, por sua vez, requereu a impronúncia da acusada, o que foi aceito. A defesa do réu Sílvio André Conceição, em suas alegações finais, postulou sua impronúncia, o que não foi aceito. A defesa do réu Samuel Paes pugnou para que seja acolhida a tese de negativa da autoria com a absolvição do acusado. A defesa dos réus Flavio Lapiana de Lima e Fabio Gambale da Silva diz que seus clientes agiram por legítima defesa.

Em outubro do ano passado, o atual Ministro da Justiça, então secretário da Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, disse que “policiais envolvidos em homicídios são criminosos vestidos de farda” e que todos os PMs envolvidos no caso de Fernando e Paulo seriam expulsos da corporação, dependendo da conclusão do procedimento administrativo aberto pela Corregedoria da Polícia Militar.

Na mesma época, o comandante-geral da PM, coronel Ricardo Gambaroni, fez um alerta à tropa de policiais militares de SP: “Ocorrências forjadas estão levando nossos policiais para a cadeia”. O coronel também afirmou que, “para a Polícia Militar, os danos à imagem podem ser irrecuperáveis [por conta das ocorrências com tiroteio forjados e que resultam em mortes]. E para os policiais militares envolvidos os prejuízos financeiros, emocionais e familiares são incalculáveis”.

Por volta das 14h37, na rua Maria Burgueta Marcondes Pestana, Butantã, os policiais militares Flávio Lapiana de Lima e Fábio Gambale da Silva,  mataram Fernando Henrique da Silva ao jogá-lo do telhado de uma casa e efetuar contra ele disparos de arma de fogo, que lhe causaram as lesões corporais descritas em laudo de exame de corpo do delito, sendo a causa eficiente de sua morte. De acordo com a juíza Giovanna Colares, a ação ocorreu “por motivo torpe, valendo-se de crueldade e de recurso que dificultou a defesa da vítima”.

O policial militar Samuel Paes e outros dois policiais que aparecem nas imagens que revelaram o crime, não identificados, concorreram para a prática do homicídio do rapaz. Segundo a denúncia, a vítima tentava escapar da detenção correndo sobre os telhados de imóveis. Todavia, deparou-se com policiais, dois deles não identificados, que também estavam nos telhados dos imóveis da região buscando detê-la.

Surpreendido pelos policiais, Fernando Henrique teria se rendido. Assim, o policial Samuel Paes passou a revistar a vítima. Com Fernando, não havia nenhuma arma. Na sequência, o rapaz foi lançado de cima do telhado, de uma altura de aproximadamente três metros.

De acordo com a juíza, “no chão, os PMs Flávio Lapiana de Lima e Fábio Gambale da Silva cientes da condição de Fernando (desarmado, rendido), quando este caiu ao solo, efetuaram disparos contra Fernando Henrique, causando nele os ferimentos que foram a causa efetiva de sua morte”. Na imagens, os barulhos dos disparos ecoaram logo na sequência da queda.

Na sentença, a juíza Giovanna Christina Colares, apontou a seguinte fraude processual: Um dos PMs envolvidos, não identificado, alterou a posição do cadáver da vítima, além de tê-lo coberto com um amontoado de jornais a fim de beneficiar os policiais militares Flávio e Fábio. E, assim, consequentemente, induzir a erro o perito criminal, o Ministério Público e o Poder Judiciário.

Por volta das 14h27, na rua Maria Burgueta Marcondes Pestana, Butantã, os policiais militares Sílvio André Conceição e Mariane de Moraes Silva Figueiredo exigiram que Paulo Henrique parasse de fugir. Sílvio sacou sua arma de fogo e efetuou um disparo, que não atingiu o rapaz, mas fez com que ele se entregasse.

Após a rendição, chegaram ao local os policiais militares Tyson Bastiane e Silvano Clayton dos Reis. Paulo foi algemado pela policial Mariana, que passou a procurar por uma arma pela região. Neste momento, os outros policiais decidiram matar o rapaz. Assim, desalgemaram a vítima e, na sequência, levaram-na até uma esquina, fazendo com que ficasse sentada no chão, de costas para um muro. Neste momento, Tyson sacou sua arma de fogo e efetuou dois disparos contra a vítima que estava cercada e vigiada.

De acordo com a juíza Giovanna Colares, a ação também ocorreu “por motivo torpe, valendo-se de crueldade e de recurso que dificultou a defesa da vítima”.

Na sentença, a magistrada apontou a seguinte fraude processual: Pesa contra os policiais Tyson Oliveira Bastiane, Silvano Clayton dos Reis e Sílvio André Conceição o agravante da fraude processual, na ação que matou Paulo Henrique. De acordo com a juíza Giovanna Colares, eles “inovaram fraudulenta e artificiosamente o estado de coisa, com o fim de induzir a erro o perito criminal, o Ministério Público e o juiz”.

Segundo a denúncia, após os disparos efetuados contra Paulo Henrique, os PMs, com o intuito de forjar versão de legítima defesa, alteraram a cena dos fatos. Silvano dirigiu-se até sua viatura, pegou um pistola calibre .380, retornou para a esquina onde estava Paulo Henrique e a colocou em suas mãos. Tyson e Sílvio acompanharam tudo e nada fizeram. A juíza considerou a ação “fantasiosa”.

Fernando Henrique da Silva, de 18 anos, o Fê, é vítima da PM (Polícia Militar) desde antes de ter nascido. Fruto de um estupro praticado por um sargento da PM de Minas Gerais, ficou nacionalmente conhecido ao morrer, sendo atirado por um homem da corporação paulista de um telhado, no bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo, no feriado de 7 de setembro. Fernando e seu amigo de infância Paulo Henrique Porto de Oliveira, 23, o Paulinho, foram executados, mesmo desarmados.

Filha e neta de policiais de Minas Gerais, a dona de casa Cleusa Glória da Silva tinha o sonho de ser policial militar. “Era o sonho do meu pai também”, diz. Há 18 anos, ao sofrer uma violência sexual de um sargento da PM, se mudou para São Paulo com o seu Fê nos braços. “Ele morreu sem saber disso. Que ele era fruto de estupro”. Aqui, tentou ser PM, mas não conseguiu. Tendo que sustentar a criança recém-nascida, passou a fazer bicos de doméstica. Depois, teve mais três filhos. E o trabalho teve que aumentar ainda mais.

O jovem Fernando passou a infância criado à beira da rodovia Raposo Tavares, na zona oeste da cidade. O garoto estudava o 3º ano do ensino médio quando foi morto. Mas já era formado em um curso técnico de gastronomia e falava aos familiares: “se não der certo ser bombeiro, viro cozinheiro”. Apesar do sonho de seguir a carreira militar – como quase toda sua família seguiu -, decidiu acompanhar os amigos do bairro, que se reuniam – e se reúnem – toda tarde e noite em uma praça na frente de sua casa. Entrou no tráfico. Vendia maconha e cocaína. Ganhava o dobro de um salário mínimo e não tinha que passar pelas dificuldades que todo trabalhador enfrenta, como transporte público ineficiente, por exemplo. Mas o destino, que parecia fácil, se virou contra ele. Foi preso e acabou morto.

A polícia na praça? Segundo os que ainda estão por ali, só aparece para pegar o dinheiro do tráfico. “A gente dá a fita [o dinheiro] pra eles [policiais] e eles não embaçam na nossa”, diz um rapaz que não será identificado por medidas de segurança. Mas Fernando não contava que sua própria mãe o denunciaria. “Eu chamei a polícia pra prender o meu filho quando ele tinha 17. Você imagina o meu desespero? Pra uma mãe chamar os caras pra perder o próprio filho, é muito amor. Eu queria que ele aprendesse. Tentei dar uma lição pra ele. Mas, infelizmente, a gente não consegue ficar 24 horas com o filho. A gente tem que trazer comida pra dentro de casa. Ele fez a escolha dele. Agora, quem sofre é a gente”, diz Cleusa. “Por favor, se você for divulgar essa nossa conversa, coloca pros meninos que tão nessa vida que saiam. Porque dá pra sair”, pede.

Fernando ficou seis meses preso na Fundação Casa de Franco da Rocha por tráfico de drogas, após a denúncia da mãe. Ao sair, fez alguns trabalhos como servente de pedreiro. Não tinha filhos, mas estava construindo um barraco na mesma região onde morava para viver com a namorada, com quem pretendia constituir uma família. “Moço, hoje eu não tenho paz. Aqueles monstros daqueles policiais me tiraram a vida. Eles tinham que prender o Fernando. Isso se provassem que ele tinha feito algo. Se batessem, eu até apoiaria. Porque seria uma lição pro Fê. Eles não tinham o direito de jogar meu filho lá de cima. Foi muita crueldade. Imagina você, como pai, vendo seu filho atirado de um telhado por um policial, que a gente sempre foi ensinado que estão ali pra proteger. É muita dor. É muito dolorido”. “Enquanto eu tiver viva, vou cobrar Justiça. Eles não vão me calar. Eu não vou deixar que esses assassinos fiquem fora da prisão”, afirma Cleusa.

Fonte: http://ponte.org/pms-que-jogaram-rapaz-de-telhado-em-sp-serao-julgados-por-homicidio-triplamente-qualificado/ 

 

PMs acusados de chacina em Osasco rejeitam oferta de delação premiada

Dois PMs acusados de participação no ano passado na chacina de 17 pessoas em Osasco e Barueri (Grande SP) recusaram proposta de delação premiada oferecida pelo Ministério Público Estadual.

Feita em junho, essa oferta de colaboração em troca de possível redução da pena reforça a dificuldade admitida pela Promotoria em conseguir reunir provas para condenar os quatro acusados pelos crimes —incluindo os dois PMs.

Em entrevista à Folha neste mês, o promotor do caso, Marcelo Alexandre Oliveira, disse acreditar na culpa dos réus, mas deixou clara a dificuldade para condená-los.

"Vai ser bem difícil a condenação. Porque, de fato, não tem uma prova contundente, irrefutável", disse ele, ressalvando depois que "as provas, analisadas conjuntamente, não deixam dúvidas [sobre a culpa dos quatro réus]".

 

Disponível na íntegra em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/08/1807013-chacina.shtml