Direitos Humanos

Família de Pixote espera por indenização há 29 anos

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“Os policiais tiraram de mim a oportunidade de ter um pai para me abraçar, me beijar, conversar”, afirma filha do ator

Há exatamente 29 anos, às 17h50 do dia 25 de agosto de 1987, o ator Fernando Ramos da Silva, o Pixote, com então 19 anos, saía de cena tombado por oito tiros disparados à queima-roupa, de três revólveres calibre 38 de propriedade do governo do Estado de São Paulo. O armamento hoje obsoleto, estava sob a responsabilidade de um sargento e dois soldados do Tático Móvel da Polícia Militar. O jovem ficou conhecido do público por interpretar o Pixote, um menino de rua no filme “Pixote, a lei do mais fraco” (1981) do diretor Hector Babenco, falecido em julho deste ano.
Passadas quase três décadas, a família ainda luta pelo direito de receber uma indenização já autorizada pela Justiça por danos morais. O valor, somado aos atrasados da pensão vitalícia entre 1987 e 2013, se tornaram precatórios, ou seja, valores devidos pelo Estado após condenação definitiva.

Em resposta ao questionamento da reportagem, a Procuradoria-Geral do Estado informou que, “segundo nossa subprocuradoria geral do Estado da Área do Contencioso Geral, a fase de execução já se encerrou com o acolhimento parcial dos embargos apresentados pela Fazenda do Estado de São Paulo (FESP). Foi expedido ofício requisitório devendo se aguardar o pagamento de acordo com a ordem cronológica”.

Esposa de Ramos da Silva, Cida Venâncio conta que, após anos de batalha com advogados e idas e vindas ao fórum passou a receber em 2014 dois salários mínimos de pensão vitalícia pagas pelo governo. Porém, a lentidão da Justiça fez com que a filha do casal, Jaqueline Fernanda da Silva, que tinha apenas dois anos quando o pai foi executado, não tivesse mais direito a receber igual valor. Nascida em 1985 e atualmente com 31 anos, ou 29 quando teve início o pagamento, ela extrapola o limite de idade, que é de 25 anos.

Avessa à entrevistas e aparições, Jaqueline falou sobre o delicado tema com a Ponte Jornalismo. “Eu gosto de ouvir pessoas falando bem do meu pai. Eu sempre sinto muita falta dele. Os policiais tiraram de mim a oportunidade de ter um pai para me abraçar, me beijar, conversar. Sinto um vazio no meu coração por isso. Principalmente, no dia dos pais, quando vejo todo mundo indo comemorar com seu pai e, eu a única coisa que posso dar para meu pai é uma flor, acender uma vela e muita oração”, diz.
Sem a ajuda financeira do marido que, quando executado desenvolvia pequenos trabalhos na região para sustentar a família, Cida desmente o que muitas vezes foi dito na imprensa, de que Babenco os teria abandonado. “Mentira. Hector Babenco foi um pai para a família. Ajudava em tudo. Sempre presente. Nunca deixou faltar nada. Inclusive, pagou todos os estudos da Jaqueline”, diz.
“Quando eu tinha sete anos sempre sonhava com meu pai e no meu sonho ele brincava muito comigo. Quando eu acordava minha avó falava que eu a noite ficava rindo muito e depois eu chorava e falava não vai pai, fica só mais um pouco comigo”.
Atualmente, Jaqueline está casada e morando na casa em que Ramos da Silva construiu no Jardim Canhema, em Diadema, na Grande São Paulo, com o cachê que recebeu pela participação no filme de Bebenco, além de uma ponta em “Eles não usam black-tie” (1981), de Leon Hirszman, e na novela o “Amor é nosso” (1981) da TV Globo, em que interpretou o personagem Pingo.

“Minha avô fez tudo por mim na medida do possível dela. Minha avó foi o pai que eu não tive. Meu pai para mim é meu herói. Sempre vai ser. Sou fã número um dele. Fã de carteirinha”, finaliza.

Dona Josefa Carvalho da Silva, faleceu há três anos, pouco depois da ação condenatória de indenização sair. Em tempo de saber que a morte de seu filho foi aceita pela Justiça paulista como uma execução, um erro do Estado em ter admitido nas fileiras da Polícia Militar o ex-sargento Francisco da Silva Junior e os ex-soldados Wanderley Alessi e Walter Moreira Cipolli. Dona Josefa, como era conhecida, morreu com mais de 70 anos, e foi enterrada no cemitério municipal de Diadema, o mesmo em que foram sepultados três de seus filhos homens, entre 1987 e 1990, também vítimas da violência urbana.

O crime

Diadema, 25 de agosto de 1987. É meio da tarde quando os policiais militares da viatura 06374 do Tático Móvel (hoje equivalente à Força Tática), do 6° Batalhão de São Bernardo do Campo – cidade vizinha a Diadema, recebem um chamado de roubo em andamento a uma empresa no bairro de Piraporinha. A viatura lotada com seis homens, após no início do turno a viatura 06373 ter colidido contra outro carro no centro de Diadema, caça os suspeitos de cometerem tal delito, de acordo com o relato no livro “Rota 66 – A história da polícia que mata” (1992), do jornalista Caco Barcellos.

Após percorrer cerca de quatro quilômetros pelas ruas de Diadema, os PMs a bordo da veraneio avistam dois jovens num barranco à beira do quilômetro 16 da Rodovia dos Imigrantes. Lá estavam Fernando Ramos da Silva, 19 anos, e Marcelo Bicalho, com então 16 anos. Ao avistar os PMs, os dois correm para dentro da favela da Vila Ester, no Jardim Canhema, onde moram.

Bicalho estava foragido da Febem (Fundação para o Bem Estar do Menor – hoje, Fundação Casa), já Ramos da Silva, era conhecido dos policiais da região, além de ter sido protagonista do filme lançado em 1981 e premiado internacionalmente, sendo par de atrizes e atores consagrados como Marília Pera, Jardel Filho e Tony Tornado, ele havia participado no mesmo ano da novela “O amor é nosso”, da TV Globo, e já havia ficado preso por duas vezes: uma por furto de uma TV quebrada, levada da casa de um comerciante, e outra por portar um revólver. Ambas as vezes não ficou sequer uma semana na cadeia.

Antes de alcançar o final do barranco, Bicalho é detido pelos três PMs da viatura 06374. Os outros três PMs que haviam batido com a viatura 06373 seguem no encalço de Ramos da Silva, que constantemente reclamava para a família, os vizinhos e para imprensa da constante perseguição da polícia. Ao chegar à rua 22 de Agosto, a primeira após o barranco e já próximo a sua residência, ele busca abrigo na casa número 6, uma espécie de moradia coletiva.Logo atrás estão de arma em punho o sargento Francisco Silva Junior, 23 anos, e os soldados Wanderley Alessi, 25, e Walter Moreira Cipolli, 23.

A última cena de Ramos da Silva, já que a vida imite a arte, é se esconder embaixo de um estrado, que com um fino colchão por cima servia de cama para uma idosa. O esconderijo logo foi descoberto. Testemunhas disseram à época que um dos PMs dissera “achei você, agora você não escapa, Pixote”, em clara demonstração de que sabiam quem era seu perseguido. Acuado, as últimas palavras do ator teriam sido: “não me matem, por favor não me matem, eu tenho uma filha para criar”. A filha Jacqueline Fernanda da Silva, havia nascido em 1985 fruto de seu casamento com Cida Venâncio.

Os vizinhos contam que Fernando não teve tempo nem de terminar a frase, sendo baleado oito vezes. Os tiros acertaram o coração, tórax e o braço, em evidente defesa. Empurrado para fora da casa, os PMs alegam legítima defesa, e, após clamor dos vizinhos, socorrem o jovem até o Pronto Socorro de Diadema, que o recebeu morto. No 3° DP da cidade, os PMs apresentam como sendo de Ramos da Silva um revólver Smith & Wesson, calibre 32, com 4 disparos deflagrados.
Segundo testemunhas era impossível o rapaz estar armado. Enquanto corria, sua camiseta larga branca era erguida ao corpo e em sua cintura nenhum volume ou arma. O rapaz também vestia uma calça jeans e um tênis. A fisionomia magra do jovem contrastava com a barba rala que ostentava para deixar uma aparência de mais velho.

Após repercussão na mídia internacional, com um obituário de 38 linhas no jornal americano The New York Times, os PMs confessaram a farsa e disseram que mataram Pixote. Também disseram que “fizeram a arma”, ou seja, dispararam um revólver frio a esmo enquanto levavam, já morto, o jovem ao hospital. Somente naquele ano, entre janeiro e agosto, 190 pessoas haviam sido mortas em supostos confrontos com a polícia no município, que ostentava uma das maiores taxas de mortes do Brasil.

Fernando Ramos da Silva foi enterrado em 27 de agosto, com a presença de mil pessoas no cemitério municipal de Diadema, que preserva até hoje uma foto do rapaz em sua lápide. Há no Centro de Diadema um CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial Alcool e Drogas), mantido pela prefeitura com o nome do ator.

Os PMs tiveram condenações entre seis e quatro anos, por fraude processual e por dificultar a investigação, depois reduzidas para dois anos, mas não ficaram um dia preso. Foram apenas demitidos da corporação (não foram expulsos, porém não conseguiram ser readmitidos mesmo pedindo na Justiça).

A reportagem procurou os acusados, mas não conseguiu localizá-los. Em 3 de setembro de 1987, o jornal Folha de S. Paulo publicou a nota de demissão dos policiais militares. Nela, o Comando da Polícia Militar informou que a demissão foi “por terem dificultado a correta elucidação dos fatos, através da alteração de dados referentes à ocorrência, bem como da o missão nas medidas necessárias no sentido de preservar a ocorrência”. Assinada pelo então chefe dos assuntos civis, o tenente coronel Julio Bono Neto, a nota continua com a mesma explicação dada hoje quando há participação efetiva de PMs em crimes. “(o comportamento) contraria normas existentes na corporação e revela nita incompatibilidade com a função policial militar”.

 

Fonte: http://ponte.org/familia-de-pixote-espera-por-indenizacao-ha-29-anos/ 

Garota Interrompida

Mickey Mouse e Pica-Pau decoram as paredes do lado de fora. Ao passar pela porta, é possível ver um pequeno sofá. À frente, um tatame colorido forra o chão. Sobre os quadrados desse tapete emborrachado, pufes e estantes com brinquedos para os 12 bebês que vivem ali. O corredor nos leva aos banheiros, sala de TV e dois quartos com camas de solteiro e berços enfileirados. Um armário de ferro e cômodas também fazem parte do dormitório. Até parece um lar, que com seus 283 m² serve de moradia a 14 meninas e seus filhos - dois ainda estão na barriga. Mas essa casa na Mooca, bairro da zona leste de São Paulo, não é visível da rua. O local está dentro de um complexo cercado por portões de ferro e telas de proteção, num nível de segurança um pouco acima do que os outros moradores necessitam. Mas e essas garotas, quem são?

À primeira vista, algumas delas não são muito amigáveis. Oferecem um olhar do tipo "o que você faz aqui?". Perfeitamente compreensível. Mesmo que temporariamente, ali é a casa delas e de seus filhos. Qualquer mãe se preocupa ao ver um estranho perto de sua cria. Mas, se ao entrar ali a sensação é de invadir um espaço privado, estar lá dentro traz um sentimento de esperança. É como se você entrasse em uma bolha.

 

"A primeira pergunta é: ‘quanto tempo vou ficar’? E a primeira frustração é a resposta: ‘não sei’. Isso frustra muito e vão se frustrar sempre porque eu realmente não sei”, afirma Ricarda Maria de Jesus, psicóloga responsável por elas.

 

[...]

 

Essas adolescentes são internas da Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente), a antiga Febem. A instituição tem 150 unidades masculinas e femininas espalhadas pelo Estado de São Paulo que são lembradas, na maioria das vezes, por rebeliões ou greves. Entretanto, quando entramos na unidade Chiquinha Gonzaga, nome do complexo aqui retratado, conhecemos a "Casa das Mães" ou Pami (Programa de Acompanhamento Materno-Infantil), que existe desde 2003. E, lá dentro, é difícil imaginar que você está em um lugar que priva a liberdade.

Para quem não vive o cotidiano de jovens infratores, as meninas parecem adolescentes comuns. Uma rápida conversa basta para simpatizar. Mais fácil ainda é esquecer os motivos que as trancaram lá. Elas cometeram crimes no momento que deveria ser o mais doce e irresponsável de sua existência e, junto a isso, carregaram - ou ainda carregam - uma nova vida. Vida essa que todas enxergam como um presente, uma benção, que vai ajudar no aprendizado da “lição”.

É proibido revelar nomes, delitos e detalhes sobre qualquer uma delas. As mães do Pami, assim como qualquer pessoa com menos de 18 anos, são protegidas pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), mesma entidade que definiu a internação como uma das medidas socioeducativas. É a punição mais dura e, de acordo com o estatuto, o adolescente só é internado quando comete atos como homicídio, tráfico de drogas ou reincidência em crimes violentos. Pequenos delitos como lesões leves e furtos em lojas podem ser convertidos em advertência, reparação de danos ou prestação de serviços à comunidade.

 

Reportagem disponível na íntegra em: http://tab.uol.com.br/maes-infratoras#garota-interrompida 

Operação policial joga bombas na Cracolândia e censura jornalista

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Uma ação das Polícias Civis e Militar cercou ruas do centro de São Paulo e lançou bombas de gás lacrimogêneo na população. PMs surrupiaram o celular de uma repórter e apagaram imagens

Durante uma operação realizada hoje na Cracolândia, na região central de São Paulo, policiais militares detiveram a jornalista Daniella Laso, da rádio CBN, e apagaram do seu celular as imagens que ela havia gravado da ação policial.

A repórter estava acompanhando a ação e, de dentro do carro da empresa – devidamente identificado – ao lado do motorista Carlos José da Silva, fotografava e filmava os policiais, que revidavam com bombas às pedras jogadas por moradores da região. Neste momento, foi abordada por um PM que questionou o fato de ela estar gravando e tentou tomar o celular dela. Daniella se negou a entregar o aparelho, dizendo que se tratava de um instrumento de trabalho. Tanto ela quanto o motorista estavam com os crachás da empresa pendurados no pescoço. O policial, então, a ameaçou. O relato da jornalista para a CBN, por volta das 10h30, foi assim:

“Nesse momento, um policial abriu a porta do carro e puxou o motorista pra fora. Outro policial abriu minha porta e pegou o meu celular – peguei de volta e disse que não poderia entregar, eu estava trabalhando. Ele ficou muito nervoso, disse que iria me algemar, me jogar no chão e me retirar do carro pra fazer abordagem. Saí do carro e uma PM revistou a minha bolsa – aí sim ela pegou o celular da empresa e levou pra outros policiais, enquanto revistaram o carro, o motorista e a mochila dele, assim como a minha”.

Daniella disse que uma policial feminina fez a revista nela. “Disseram que seríamos levados pra delegacia e enquadrados em crime de desobediência, mas, depois de meia hora, fomos liberados. Entregaram meu celular e, quando fui ver as gravações, elas tinham sido apagadas. Fiquei muito assustada pela atuação do policial. E não sei o motivo de as gravações terem sido apagadas. Se era uma ‘operação legal’, o vídeo não deveria ter sido apagado”, questiona Daniella, que também disse saber quais os nomes de todos os policiais que participaram da abordagem abusiva.

Ao grupo Jornalistas contra o Assédio, que manifestou solidariedade à jornalista, Daniella afirmou que registrou boletim de ocorrência por abuso de autoridade no 77º Distrito Policial.

Colegas de imprensa informaram que, no grupo de Whatsapp mantido pela Polícia Militar para troca de informações com repórteres, a ação da corporação foi criticada e questionada, mas ninguém se pronunciou.

Sobre a ação

A operação policial realizada nesta manhã envolveu o Departamento de Narcóticos da Polícia Civil de São Paulo (Denarc), o Grupo de Operações Especiais (GOE), também da Polícia Civil, e a Polícia Militar, com forte presença da Tropa de Choque. De acordo com o Denarc, uma investigação apontou a existência de uma espécie de QG do tráfico no coração da Cracolândia, ao lado da estação da Luz, no centro de São Paulo.

O objetivo da ação, que contou com a participação de mais de 500 policiais, era o de cumprir 19 mandados de prisão, mas até o momento houve a confirmação de 15 capturas. Houve lançamento de bombas de gás lacrimogêneo sobre dependentes químicos e o arrombamento de hotéis que participam do programa De Braços Abertos e outros estabelecimentos. O Choque sitiou o local, fechando os acessos nas ruas Dino Bueno e Helvétia.

Segundo o Coletivo Autônomo de Trabalhadores Sociais – Catso, a operação usa a justificativa de prisão de traficantes, mas foi, na verdade, fruto um acordo entre a Porto Seguro, que é mantenedora de um teatro inaugurado há pouco tempo na região, e o Governo do Estado de São Paulo para “limpar” a cracolândia. Segundo o coletivo, a PM usou de forte aparato de repressão, lançando bombas de gás lacrimogêneo e fazendo abordagens humilhantes dos dependentes químicos. Observando à distância a ação, havia um grupo de seguranças particulares contratados pelo Grupo Porto Seguro.

Outro lado

Procurada por e-mail, tanto a Polícia Militar de São Paulo quanto a Porto Seguro não se manifestaram até o fechamento desse texto. A SSP realiza uma coletiva de imprensa na sede neste começo de tarde.

 

Fonte: http://ponte.org/operacao-policial-joga-bombas-na-cracolandia-e-censura-jornalista/ 

 

"A guerra às drogas é um mecanismo de manutenção da hierarquia racial"

Em visita ao Brasil, ativista norte-americana formada em Harvard diz que a política proibicionista teve sucesso ao criminalizar negros e pobres
por Débora Melo — publicado 27/07/2016 01h39, última modificação 28/07/2016 22h50

A guerra às drogas é uma ferramenta da qual a sociedade contemporânea depende para manter negros e pobres oprimidos e marginalizados. Esta é a opinião da ativista do movimento negro norte-americano Deborah Small, formada em Direito e Políticas Públicas pela Universidade de Harvard.

Em viagem pelo Brasil para uma série de palestras sobre política de drogasracismo eencarceramento, Small desembarca nesta quarta-feira 27 em São Paulo, depois de passar por Rio de Janeiro, Salvador e Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

Em entrevista a CartaCapital, a ativista fez um paralelo entre as polícias do Brasil e dos EUA – onde tem crescido a tensão com a comunidade negra – e defendeu que o Brasil assuma uma posição de liderança nodebate regional. “A única coisa capaz de ajudar a América do Sul é dar um fim à política proibicionista”, disse a ativista.

Deborah Small já foi diretora de assuntos legais da New York Civil Liberties Union, pela qual se dedicou à defesa dos direitos dos presos. Depois ocupou o cargo de diretora de políticas públicas e articulação comunitária da Drug Policy Alliance e há cerca de dez anos criou a organização Break the Chains, cujo objetivo é conscientizar a comunidade negra norte-americana sobre os efeitos perversos da guerra às drogas. Confira a entrevista:

CartaCapital: Quais suas primeiras impressões a respeito do Brasil?

Deborah Small: Esta é minha terceira vez no Brasil, e eu vim para discutir questões relacionadas às drogas e ao modo como o Brasil desenvolve sua política de drogas. Para ser bem franca, eu não tenho visto grandes melhorias, pois o Brasil ainda depende muito da polícia para lidar com a questão.

Esse esforço policial é concentrado nas favelas, como se este fosse o único lugar onde as drogas estão, mesmo que nós saibamos que em todos os países o uso de drogas é igualmente distribuído e atinge todos os grupos sociais e econômicos. O problema é que, assim como nos Estados Unidos, há certa negação a respeito da existência de usuários de drogas e dependentes químicos entre os ricos e poderosos, e o foco é sempre a população pobre.

CC: Algum comentário sobre o trabalho da polícia e o processo de pacificação das comunidades?

DS: Eu passei um dia na favela, no [Complexo do] Alemão, e não há palavras para descrever essa experiência. Lembrei muito da zona sul de Chicago, onde os sinais da violência são visíveis. Eu vi marcas de tiros, marcas de balas nas casas das pessoas, e isso foi assustador para mim. Eu só conseguia pensar em quem vive do outro lado daquelas paredes. A maioria dessas pessoas não tem envolvimento com o crime, mas vive em um estado de sítio.

Eu não entendo como é possível construir uma boa relação entre polícia e comunidade quando você tem policiais circulando pelo bairro com suas armas para fora da janela, com o dedo no gatilho. Foi isso que eu vi, e as pessoas agem como se isso fosse completamente normal. Eu não entendo. Honestamente, eu vivi na cidade de Nova York, então não é como se eu não soubesse o que é viver em uma comunidade violenta. Mas a polícia está ali para, supostamente, proteger as pessoas.

CC: Isso não acontece nos EUA?

DS: Eles têm armas, mas eles não devem exibir essas armas a não ser que estejam diante de alguém perigoso. Circular com armas para fora do carro, apontando para as pessoas, seria considerado um comportamento policial extremamente inapropriado, porque a mensagem que isso passa para a comunidade é que, basicamente, todos são suspeitos, todos são criminosos e todos estão sujeitos a serem alvejados por tiros a qualquer momento.

CC: Aqui no Brasil isso só acontece na periferia...

DS: Sim, apenas na favela, onde a maioria é negra. Então é basicamente a população negra que está sendo obrigada a viver em um estado de medo. É como se dissessem que a culpa também é deles porque, se eles não tivessem traficantes entre eles, não teriam de viver desse jeito.

CC: A letalidade das polícias do Rio e de São Paulo é altíssima, mas a maioria dos brasileiros parece não se importar, diferentemente do que ocorre nos EUA. O que explica esse fenômeno?

DS: Ontem [quinta-feira 21] eu estive com um movimento de mulheres negras do Rio de Janeiro e, assim como nos Estados Unidos, mas ainda mais aqui no Rio, há uma preocupação em aumentar a conscientização dentro da própria comunidade negra. Essa é uma das bandeiras mais importantes do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução livre), de que nós temos que defender a vida de toda a nossa gente, incluindo as pessoas que podem ou não estar vendendo drogas.

Então eu acho que grande parte das razões pelas quais as pessoas não reagem a essas mortes é porque lhes foi dito que aqueles que foram mortos eram traficantes ou tinham algum envolvimento com o tráfico. E a maioria das pessoas acredita nisso, até que os filhos deles sejam presos ou mortos. Só então eles pensam: ‘não, isso não é correto’.

Para mim, isso é parte do legado da escravidão e da segregação racial, que fez os negros acreditarem que eles próprios são criminosos. Você quase tem que provar que a pessoa que foi morta não era uma criminosa para que a comunidade sinta alguma empatia por ela. Quando as pessoas são classificadas como criminosas, a sociedade não se sente obrigada a pensar quais são as causas disso. 

CC: É por isso que você costuma dizer que a guerra às drogas não fracassou e, na verdade, é um sucesso?

DS: O sucesso da guerra às drogas foi fazer as pessoas acreditarem que um grupo está mais propenso à criminalidade que outro. E também teve sucesso ao fazer com que esse mesmo grupo acreditasse nisso.

Quando nós falamos de drogas, por algum motivo nós deixamos de lado a nossa racionalidade para acreditar que esta é uma realidade exclusiva dos pobres, dos negros. Isso não faz sentido, exceto se você pensar que a guerra às drogas é um mecanismo de manutenção da hierarquia racial da qual a sociedade depende.

CC: Você vê algum paralelo entre o racismo no Brasil e nos Estados Unidos? Quais as consequências do histórico de escravidão nessas duas sociedades?

DS: Eu acho que uma semelhança que existe entre os dois países, além desse histórico, é o nível de negação a respeito das consequências desse passado. Existe uma negação sobre o modo contínuo como a discriminação racial não apenas prejudica os negros, mas beneficia os brancos.

Quando eu entrei na faculdade de Direito, nos Estados Unidos, muitos dos meus colegas brancos me perguntaram se eu não me sentia uma pessoa de sorte por ter a chance de estar ali. Em um primeiro momento eu disse que sim, mas depois eu parei pra pensar e disse a eles: ‘não, eu não tenho sorte, eu mereço estar aqui. Mas eu tenho certeza de que alguns de vocês não estariam aqui se os seus pais tivessem que competir com os meus pais’.

Então, para mim, a questão do racismo que não é comentada é que grande parte da riqueza e dos privilégios dos quais as pessoas brancas desfrutam hoje é porque elas não tiveram que competir com os negros. Mas elas acreditam que merecem tudo aquilo que têm. 

CC: De que forma isso explica os recentes conflitos entre a polícia e a comunidade negra nos EUA?

DS: A polícia é o instrumento que a sociedade usa para manter o status quo racial, ou seja, parte da função da polícia é manter esse status quo. Então os privilegiados podem manter seus privilégios, e as pessoas da base são mantidas na base, sem condições de ascender socialmente.

O departamento policial é, em sua grande maioria, branco, policiando comunidades negras. Em cidades como Baltimore [Maryland] e Washington DC há muitos policiais negros, mas no restante a grande maioria é branca. Então a diferença racial e as diferenças econômicas e sociais contribuíram muito para o conflito.

O Brasil, por outro lado, tende a atrair a população mais pobre para compor a sua força policial. Então, basicamente, você tem pobre oprimindo pobre, mas, de maneira geral, são pessoas com as quais a sociedade não se importa.

Na minha opinião, não existe um compromisso social com qualquer um desses grupos. Então você não vê o presidente ou o prefeito comentando as mortes por policiais, como se faz nos EUA, porque os policiais são da mesma classe social que os pobres que eles combatem. De certa maneira, todos eles são considerados descartáveis.
 
CC: O que seria uma política de drogas justa?

 

DS: Eu acredito que a melhor política de drogas é não ter política criminal de drogas. Nós precisamos de políticas de saúde para tratar problemas de uso de drogas, da mesma forma como lidamos como tabaco, álcool e outras substâncias que causam dependência.

A proibição prejudica completamente a economia dos países, porque toma esses produtos e os torna mais valiosos que qualquer coisa que as pessoas possam cultivar ou produzir. E os mais afetados são os países produtores.

CC: Qual é o papel do Brasil na discussão global sobre drogas?

DS: Eu tenho algumas preocupações em relação ao Brasil. Uma é que o Brasil experimentou um aumento no consumo de drogas na última década. A segunda preocupação diz respeito à atual crise política. Na minha opinião, isso parece um golpe, e o novo governo quer trazer de volta o poder das oligarquias.

Para mim, o que acontece aqui é muito parecido com o que aconteceu em Hondurassete anos atrás. Eu não sou brasileira, não sei o suficiente sobre a política doméstica, mas me parece muito errado que o novo governo não tenha incluído nenhum negro,nenhuma mulher. Isso não me parece um governo progressista.

Minha preocupação é que a economia brasileira vai continuar piorando enquanto a situação política estiver esse tumulto. O País pode acabar como Honduras, e as consequências para o mundo são catastróficas. As consequências para Honduras afetaram principalmente Honduras, mas o que acontece com o Brasil afeta toda a população da América do Sul e até mesmo a economia global.

Presumindo que todos esses problemas sejam resolvidos de maneira positiva, minha esperança é que o Brasil se torne de fato um líder da região. Porque a única coisa capaz de ajudar a América do Sul é dar um fim à política proibicionista. Apenas caminhando em direção à regulamentação será possível se livrar do efeito distorcido que a proibição tem sobre a economia da América da Sul.

Quando você observa a história das Américas, do Canadá ao Chile, há uma implicação do passado de escravidão, colonialismo e genocídio da população indígena. Até estarmos dispostos a lidar com isso honestamente, nós iremos sempre desenvolver nossas políticas de justiça criminal, incluindo a política de drogas, em termos raciais e discriminatórios. E uma das coisas que a gente pode fazer para mudar isso é não repetir no século 21 a história dos séculos 19 e 20.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-guerra-as-drogas-e-um-mecanismo-de-manutencao-da-hierarquia-racial 

Assassinatos de jovens no Brasil: uma epidemia de indiferença

Segundo relatório, país mata em média 29 crianças e adolescentes por dia

ATILA ROQUE*

02/07/2016 - 11h45 - Atualizado 04/07/2016 10h26

 

O Brasil viveu recentemente o choque de ver crianças de 10 e 11 anos, em São Paulo, serem mortas em abordagem policiais que apresentam fortes indícios de uso desnecessário da força letal. Elas não foram as únicas a ter suas histórias tão drasticamente interrompidas. De acordo com os dados coletados pela Ouvidoria das polícias de São Paulo, desde 2010 até o dia 27 de junho, foram 191 crianças e adolescentes de até 16 anos mortas pelas forças de segurança do maior Estado do Brasil, o que equivale a cerca de dois casos por mês. Dez dessas mortes foram de crianças com menos de 14 anos.

Infelizmente, homicídio de crianças e adolescentes não é uma exceção no Brasil. O relatório Violência Letal contra as Crianças e Adolescentes do Brasil, divulgado no último dia 30 de junho, revela que o Brasil mata em média 29 crianças e adolescentes por dia. O país convive, tragicamente, com uma espécie de “epidemia de indiferença”, quase cumplicidade de grande parcela da sociedade e dos governos, com uma situação que deveria estar sendo tratada como uma calamidade social: a perda irreparável de vidas, principalmente de jovens e adolescentes, quase sempre negros, moradores de favelas e periferias.

A classe média alta, que mais teme a violência, não é, portanto, a principal vítima. A sociedade está em negação. O racismo e os estereótipos negativos que prevalecem em relação aos moradores de favelas e periferias contribuem diretamente para a distribuição seletiva da justiça e da violência.

É ainda mais grave saber que as forças de segurança são responsáveis por uma parcela significativa desses homicídios.Uma realidade sem vencedores, todos perdemos: perde o sistema de justiça, que não dá conta, perde a polícia que está em guerra contra a sociedade, perde o chamado “cidadão de bem”, brutalizado pelo medo e perde a sociedade, que admite e alimenta a vingança em vez da justiça. Chegou a hora de dizer basta ao massacre que nos coloca entre os países que mais matam jovens no mundo.

Disponível em: http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/07/assassinatos-de-jovens-no-brasil-uma-epidemia-de-indiferenca.html