Balanço da XII Parada do Orgulho GLBT de São Paulo

A Associação da Parada do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros calculou um público de 3,4 milhões de pessoas na manifestação de 25 de maio de 2008, na Avenida Paulista e Rua da Consolação, na cidade de São Paulo-SP.

Foto extraída do site da APOGLBT

Embora meios de comunicação e especialistas venham apontando certa fragilidade no cálculo de participantes, mesmo assim trata-se de uma manifestação que incita a olhar diferentemente populações tradicionalmente discriminadas na sociedade brasileira.

Através da visibilidade de diversidades sexuais e identidades sociais que constituem nossa contemporaneidade, com seu apelo ao respeito às diferenças e pluralidade, a Parada do Orgulho GLBT de São Paulo alça um importante passo para consolidação e luta política por direitos e cidadania de populações marginalizadas.

O tema da XII Parada do Orgulho GLBT de São Paulo foi “Homofobia mata! Por um estado laico de fato”. Esse tema foi veiculado na manifestação através de uma música tocada pelos trios durante o evento, o GLBTema; para Alexandre Santos presidente da APOGLBT em coletiva a imprensa na Fecomercio no dia 25 de maio de 2008, algumas horas antes da manifestação, o tema se justifica da seguinte maneira: “Não podemos deixar que o púlpito do congresso se torne o púlpito de uma igreja”.

O GLBTema

“Homofobia Mata

Por um estado laico de fato e de verdade

Daquilo que nos fez humanos

Tudo foi Diversidade

Por sermos tão diferentes

Que somos todos iguais

Brilham os olhos as mentes

Queremos brilhar em paz

O orgulho o amor o respeito

São sempre irmãos da razão

O que nos move é o efeito

Do pulso de um coração

A humanidade escondida

Precisa se revelar

Homofobia é prisão

De quem não quer se encontrar

Discriminar é crime

Não devemos nada a ninguém

Bote a mão na consciência

Que problema você tem?”

Ousa a música "GLBTema" a partir do site:

www.paradasp.org.br/parada2008

A organização da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo buscou agregar forças através da manifestação para aprovação do projeto de lei PLC 122/06 que torna crime a discriminação e preconceito contra homossexuais.

O PLC 122/06 está sendo discutido atualmente na Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal, e as maiores oposições ao tratamento do tema vêem das bancadas religiosas.

A Parada apela para construção de Direitos e políticas públicas para populações GLBTs. O tom festivo da manifestação não deve ser menosprezado, é uma maneira muito interessante de levantar questões, propor horizontes alargados para afirmações de cidadania de GLBTs.

O Mês do Orgulho GLBT não se resumiu a manifestação da Parada, ainda que essa seja seu filão e seu grande empreendimento. Dentre as atividades que antecederam a Parada houve o VI Ciclo de Debates, marcado pela discussão de políticas públicas para GLBTs e atuação do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, principalmente através do Grupo de Trabalho Psicologia e Questões GLBTTT, coordenado pela psicóloga Sandra Elena Sposito, os debates ocorreram nos dias 19 e 21 de maio, sob a coordenação da antropóloga Anna Paula Vencato, para ela o ciclo de debates "É um diálogo inédito e importante, especialmente numa época em que começa a existir clínicas e psicólogos que prometem curar a homossexualidade, a despeito da resolução do conselho de que homossexualidade não é doença".

Os debates foram divididos nos seguintes tópicos: “As questões GLBTT e a formação do psicólogo: desafios e possibilidades”, “A atuação do psicólogo junto à população GLBTT: questões éticas e técnicas”, e “Estado Laico e Direitos Sexuais – a questão GLBTTT”. Trouxe especialistas, advogados, militantes, cientistas sociais, psicólogos entre outros discutindo os rumos do movimento, as atuações da psicologia e a Resolução 006/99, e políticas públicas para população.

A Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia foi um marco no que diz respeito ao tratamento psicológico das problemáticas de gays, lésbicas e bissexuais ao declarar que a homossexualidade não constitui uma doença e que o profissional da Psicologia não pode tratar o tema como distúrbio.

A APOGLBT juntamente com o Programa Municipal de DST/AIDS e a Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de São Paulo organizaram oficinas com os temas “Erotismo, Saúde e Direitos” que aconteceram no dia 22/05/2008, simultaneamente a 8ª Feira Cultural GLBT, na Praça da República. Nessa Feira ainda, ocorreu à premiação oferecida pela APOGLBT: “Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade”, que lembrou boas práticas e divulgou pessoas, instituições e os fatos mais significativos no cenário político, social e cultural para a comunidade GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais) brasileira, contribuindo na promoção dos direitos humanos, foram 12 categorias premiadas, sendo elas: Justiça; ONG; Vídeo; Literatura; Direitos Humanos; Cinema; Teatro; Publicidade; Televisão; Memória; Internacional e Especial.

Conheça os homenageados no "8º Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade" a partir do site:

http://www.paradasp.org.br/modules/news/article.php?storyid=448

Antecipando a Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, ocorreu no dia 24 de maio de 2008 a VI Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, organizada pela Liga Brasileira de Lésbicas, o movimento busca delimitar sua especificidade e proclama romper com a invisibilidade de lésbicas e bissexuais dentro do movimento GLBTT.

 

Essa manifestação aponta para a pluralidade de manifestações identitárias no Brasil contemporâneo e mostra a complexidade do movimento de GLBTs, nesse sentido é importante lembrar a interessante análise do movimento homossexual brasileiro da década de 1990 realizada por Regina Facchini, em seu livro "Sopa de Letrinhas? Movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90. RJ- Editora Gramond, 2005", a autora chamou atenção para a complexidade das categorias e identidades sociais que estão em jogo e disputa nesses movimentos, as várias denominações dos sujeitos políticos do movimento é permeado por uma “Sopa de Letrinhas”, isto é, diante a proliferação de categorias e denominações que o “Movimento Homossexual Brasileiro” construiu durante as três ultimas décadas existem processos mais amplos e complexos de lutas por identidades e sentidos políticos que nem sempre encontram denominação estável e coerente, o movimento busca constituir sujeitos políticos atrelada às invenções contemporâneas por especificidade identitárias, o importante é ressaltar que a complexidade é o filão do movimento homossexual que convive por um lado com a pluralidade e por outro com demandas identitárias específicas.

Devemos também atentar para a positividade da manifestação quanto ao diálogo e cooperação entre sociedade civil e instituições governamentais. Deve-se citar um exemplo importante de políticas públicas que foi construída em torno da manifestação; eis que em reunião no dia 3 de abril de 2008 no Comando da Polícia Militar em São Paulo, a PM divulgou o plano de segurança para a Parada do Orgulho GLBT de São Paulo que a APOGLBT considerou “excelente e surpreendente”. No plano constam às estratégias da PM para a manifestação, entre as novidades em relação aos anos anteriores a APOGLBT destacou: criação de bolsões para policiais nos canteiros centrais da Avenida Paulista, e da Rua da Consolação; criação de corredores de serviços para circulação de viaturas na região do Parque Trianon e da Rua da Consolação, para atendimentos médicos e policiais; um hospital de campanha na Praça Roosevelt (fim da Parada) com 40 leitos; o Vão do Masp foi totalmente fechado e restrito à logística e as autoridades e da APOGLBT; foi empregado o efetivo policial de mil soldados, apoiados por três batalhões de área, pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), pelo Batalhão de Trânsito e da Companhia de Engenharia de Tráfego (CE) e da segurança das estações de metrô.

Gustavo Rainieri/ G-ONLINE

Essa organização resultou em uma gestão da população que participou da manifestação garantindo mais segurança em um sentido mais amplo, tanto em relação a saúde, seja pelos hospitais e atendimento ambulatorial disponível (destaque importante deve também ser dado às políticas de prevenção das DST/AIDS com a distribuição de camisinhas e informativos realizados através da cooperação entre Secretaria Municipal da Saúde, Programa Municipal de DST/AIDS, CADS entre outras), seja pelo atendimento dos participantes em relação aos danos como pequenos furtos. Os poderes públicos, e em especial, a Polícia Militar surge nesse cenário, que é importante marcar, pela garantia de segurança a populações que eventualmente no Brasil afora são tratadas com violência institucional severa e discriminação.

Não devemos esquecer a importância dessa ação da Polícia Militar, ainda mais se lembrarmos que na década de 1980, quando o movimento homossexual brasileiro começava a aglutinar forças, os homossexuais e travestis sofriam com a caça e prisão a partir de ações coordenadas pelo Delegado de Polícia José Wilson Richetti, famoso pelas arbitrariedades e violências que investia no gueto gay de São Paulo, e foi necessário naquela época para reagir a “Operação Limpeza” no dia 13 de junho de 1980 mais de mil manifestantes protestarem em uma passeata pelo centro de São Paulo contra a perseguição policial aos homossexuais, travestis e prostitutas no centro da cidade, com felizes slogans: “Abaixo a repressão, mais amor e mais tesão”, “Richetti é Louca, ela dorme de touca” entre tantas outras. Não é necessário dizer que o deboche e o humor é marca fundamental a longa data do movimento homossexual brasileiro.

Devemos ainda dar especial atenção aos dados levantados pelos meios de comunicação, segundo os quais na Parada houve um atropelamento, 300 atendimentos médicos causados em sua maioria pelo excesso de ingestão de bebidas alcoólicas, e registro de cerca de 20 Boletins de Ocorrência, sendo quatro flagrantes de roubo, enquanto que no ano passado foram 5 roubos e 52 Boletins de Ocorrência. Contribuiu muito a manifestação nesse sentido a organização da Polícia Militar para gerir essa massa confusa e extremamente gigantesca de mais de três milhões de pessoas.

Outros dados levantados coroam a complexidade da manifestação, durante a coletiva de imprensa na Fecomercio (Federação do Comércio do Estado de São Paulo) foi comentado o dado segundo o qual 169 milhões de reais são aportados em São Paulo durante a realização do Mês do Orgulho (interessante exemplo de aliança entre comércio e APOGLBT foi a realização da 8ª edição do Gay Day, no parque de diversões Playcenter, que atraiu mais de 8 mil pessoas no dia 24 de maio de 2008); e Caio Luis de Carvalho, presidente da SP Turismo, revelou: “São Paulo tem 46 mil quartos disponíveis em sua rede hoteleira. Para a Parada de 2008 temos uma ocupação de 85% deles”.

 

Cena do local do atropelamento com o sangue ainda no chão. Fonte: Gustavo Ranieri/G-ONLINE

Manifestações como a Parada do Orgulho GLBT de São Paulo tornam nossa contemporaneidade mais complexa e apontam para as lutas que surgem no contexto democrático brasileiro, são exemplos de como populações tradicionalmente marginalizadas buscam explorar no “espaço público” demandas por direitos humanos, cidadania e justiça, e políticas públicas.